
Acabo de reler, há poucos dias atrás,
'Seis propostas para o próximo milênio' [Companhia da Letras, 1990], de
Italo Calvino. Esse é, na verdade, o subtítulo do original, que tem como título o mesmo desse post. A tradução da Companhia das Letras não usou o título, apenas o subtítulo. Comecei a ler os livros de Calvino por influencia de um professor que foi, antes de tudo, um grande amigo. Nunca mais o vi depois que saí da faculdade. Soube a um tempo atrás que o Cininho [diminutivo de Alcino] andava lá pelas bandas de Brotas.
O primeiro livro de Calvino que li foi
'As cidades invisíveis'. Depois li as Seis propostas e então não parei mais. Os meus preferidos são
‘Os amores difíceis’ [que inclui
‘A nuvem de Smog’ e
‘A formiga Argentina’,
finalmente lembrei onde tinha lido esse conto em português],
‘Marcovaldo’ e
‘Palomar’ [todos pela Cia das Letras]. Agora estou relendo
‘Palomar’ e os outros livros já estão na minha mesa de cabeceira.
As lições foram escritas para serem proferidas como palestras na Universidade de Harvard no ano letivo 1985-86. Seriam palestras sobre valores que Calvino considerava importantes para a literatura e que ele achava iriam marcar as letras do próximo milênio [esse milênio em que vivemos]. Segundo Esther, sua mulher, Calvino tinha idéias para mais duas lições além das seis e a oitava teria o título
‘Sobre o começo e o fim’. Calvino não chegou a escrevê-la, assim como não escreveu a sexta lição,
Consistência. As outras 5 lições são:
Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade. Se havia a idéia para 8 lições, qual seria a sétima?
Das 5, a que mais me toca é exatidão. O motivo é justamente, segundo explica Calvino, o oposto de exatidão que ajuda a definir o conceito: vago, indefinido. Outro motivo, talvez, que me faça gostar mais da lição sobre exatidão seja o fato de que Calvino fale algumas coisas com as quais me identifico muito. Transcrevo uma passagem:
‘Creio que meu primeiro impulso decorra de uma hipersensibilidade ou alergia pessoal: a linguagem me parece sempre usada de modo aproximativo, casual, descuidado e isso me causa intolerável repúdio. Que não vejam nessa reação minha um sinal de intolerância para com o próximo: sinto um repúdio ainda maior quando me ouço a mim mesmo. Por isso procuro falar o mínimo possível e se prefiro escrever é que, escrevendo, posso emendar cada frase tantas vezes quanto ache necessário para chegar, não digo a me sentir satisfeito com minhas palavras, mas pelo menos para eliminar as razões de insatisfação de que me posso dar conta. A literatura – quero dizer, aquela que responde a essas exigências – é a Terra Prometida em que a linguagem se torna aquilo que na verdade deveria ser.’ [p.72]
Eu também acho que a linguagem é bastante maltratada e, por isso, não gosto de falar muito, prefiro economizar porque sei que maltrato a língua, por preguiça, vício, desleixo. Assim, também prefiro escrever. Sei que no papel posso ir e vir, ler e rever, num esforço contínuo pela busca da forma mais adequada ou mais bem-tratada. E olha que fui professor e vivi de falar o que pensava por muitos anos. E não era um mau professor. Quando escrevo, sou mais claro, mesmo sendo vago. Mas não chego aos pés de Calvino, seria muita pretensão. Em Calvino, a linguagem é aquilo que deveria ser.